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Alice Moderno PDF Imprimir e-mail
28-Out-2008


Alice Moderno – uma mulher pioneira (1867-1946)
 
 
 
Ao abrirmos a Agenda Feminista 2010, que tem como tema “As Mulheres a República”, deparamos no mês de Agosto com o retrato de Alice Moderno e um belo texto de Cristina Duarte sobre esta extraordinária mulher. Apetece-me falar um pouco mais sobre Alice Moderno, pois descobri no livro de Maria da Conceição Vilhena: Uma mulher pioneira: ideias, intervenção e acção de Alice Moderno, aspectos que me sensibilizaram particularmente. Jornalista, escritora, agricultora, comerciante, Alice Moderno soube conjugar todas estas actividades com os seus ideais republicanos e feministas. Mulher atenta e interveniente nas questões sociais, revelou uma particular sensibilidade pela Natureza.
 
(texto de Manuela Tavares)

 

 
Apetece-me falar um pouco mais sobre Alice Moderno, pois descobri no livro de Maria da Conceição Vilhena: Uma mulher pioneira: ideias, intervenção e acção de Alice Moderno, aspectos que me sensibilizaram particularmente. Jornalista, escritora, agricultora, comerciante, Alice Moderno soube conjugar todas estas actividades com os seus ideais republicanos e feministas. Mulher atenta e interveniente nas questões sociais, revelou uma particular sensibilidade pela Natureza. Afirmava, no jornal por ela fundado, A Folha, em artigos publicados a 16 de Fevereiro de 1913 e a 15 de Março de 1914, este último, quando da celebração em Ponta Delgada da Festa da Árvore:
 
“Plantar árvores é não só amar a natureza. Mas ainda ser previdente quanto ao futuro, e generoso para com as gerações vindouras. Cortá-las ou arrancá-las a esmo, sem um motivo justo, é praticar um acto de selvajaria”. (16/2/1913) (...) “A árvore é um tecto, nos dias em que o sol ou a chuva nos surpreendem em plena estrada. A árvore é a cadeira onde nos sentamos para estudar, trabalhar e descansar das fadigas do dia. (...) A árvore é a essência medicamentosa que fornecerá o alívio aos tormentosos males que cruciam a precária humanidade. A árvore é confidente discreta dos namorados e a desvelada protectora dos pássaros – esses poetas do ar. A árvore é a maior riqueza da gleba, o maior tesouro dos campos e o maior encanto da paisagem!” (15/3/1914)
 
Trata-se de um verdadeiro hino às árvores, numa época em que as questões do ambiente não estavam presentes nas preocupações das maioria das pessoas e sobre as quais as feministas não revelavam especial atenção, como seria natural, naquele contexto histórico e social onde o fulcro do seu pensamento e acção se centrava na luta pelos seus direitos como mulheres.
Alice Moderno foi uma grande defensora do direito ao trabalho e à educação para as mulheres. No seu jornal, abriu uma rubrica Pelo Feminismo com notícias sobre o movimento feminista internacional. Denunciava casos como o de um grupo de operários de uma fábrica de tabaco em Pernambuco, que protestaram junto do Inspector de Higiene Pública do Estado contra a admissão de mulheres na fábrica com o pretexto que lhes faria mal à saúde. Alice Moderno regozija-se pelo facto do referido inspector ter respondido que “ao trabalho tem o homem tanto direito como a mulher”. Afirmava, ainda, que as mulheres não deveriam resignar-se a serem seres inferiorizados e que os pais, em vez de prepararem dotes para as filhas, deviam preocupar-se em dar-lhes educação que as habilitasse a terem uma profissão. (A Folha, 10 de Outubro de 1909)
Segundo Alice Moderno, a mulher passava, facilmente, do lugar de deusa inspiradora do apaixonado ao de cozinheira hábil ou governanta útil, quando não era “atirada ao monturo das coisas velhas”, quando se apagava o fogo da paixão dos sentidos. O homem temia a mulher de igual nível intelectual, preferindo aquela que só pensava em agradar-lhe, ignorante e inexperiente, incapaz de decidir dos seus actos,...[1] Em 1910, surge no jornal uma rubrica nova “Notas de uma feminista” assinada por Teresa Franco e, também, em outras ocasiões “Notas de um feminista”, assinado por Luís Leitão, que já se tinha destacado por escrever artigos sobre os direitos das mulheres. A 10 de Janeiro de 1910, A Folha noticiava a criação, em Paris, do primeiro clube feminista que se interessava por artes e literatura onde existiam salas para leitura, conferências e audições musicais. Em Londres, segundo se noticiava, já existiam trinta clubes idênticos. Alice Moderno incentivava as mulheres açorianas da classe média a juntarem-se e a fazerem coisas mais úteis do que falar de modas e bisbilhotar nas vidas alheias. Os seus apelos à educação das mulheres eram frequentes no jornal e a 1 de Dezembro de 1912, explica que nada havia a temer com a educação e os direitos das mulheres: “em países onde já foi concedido à mulher, o direito ao voto à mulher, como a Nova Zelândia e a Austrália, há um progresso social notável, relativo às suas reivindicações: os salários femininos aproximam-se dos masculinos em trabalhos iguais, ou idênticos; a mortalidade infantil desceu; o tráfico de brancas reduz-se cada vez mais; a velhice tem direito a pensões”. [2]
Muito convicta da importância do direito ao voto para as mulheres, Alice Moderno, contesta as vozes republicanas que diziam que as mulheres não estavam preparadas para votar, declarando que também muitos homens não estavam preparados para exercer tal responsabilidade, mas que não lhes era negado o direito ao voto. “Negar o voto à mulher pela simples razão de o ser é uma aberração que, mais dia menos dia, tem de desaparecer, e dá perfeitamente a síntese do atraso intelectual de quem o confessa. Se a mulher paga contribuições talqualmente como o homem, se está sujeita às mesmas leis e penalidades do que estes, por que não há-de gozar dos mesmos direitos cívicos? Continuar a cercear-lhos seria, além de absurdo, uma iniquidade que o actual regime não pode praticar”. (A Folha, 19 de Março de 1911)
Esta voz de mulher consciente, determinada e destemida apaga-se no dia 20 de Fevereiro de 1946. É importante retirar da invisibilidade histórica muitas das mulheres destemidas dos tempos da República. A Agenda Feminista 2010 publicada pelas Faces de Eva e pela UMAR constitui um óptimo trabalho de valorização da memória histórica dos feminismos. Parabéns a toda a equipa.
 
Manuela Tavares
Investigadora em Estudos sobre as Mulheres


[1] VILHENA, Maria da Conceição, 2001, Uma mulher pioneira. Ideias, Intervenção e Acção de Alice Moderno, Lisboa, Edições Salamandra, p. 100.
[2] Op. cit., p. 103.

 

 
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Sabia que...

Este fragmento de texto, “A revolta da mulher é a que leva à convulsão em todos os estratos sociais; nada fica de pé, nem relações de classe, nem de grupo, nem individuais, toda a repressão terá de ser desenraizada (...) Tudo terá de ser novo. E o problema da mulher no meio disto, não é o de perder ou ganhar, mas é o da sua identidade.”,
pertence ao livro Novas Cartas Portuguesas de Maria Isabel Barreno, Maria Velho da Costa e Maria Teresa Horta, publicado em 1972 e que foi apreendido pela PIDE, tendo as autoras sofrido um processo de julgamento por “atentado à moral pública”, que ficou conhecido como o julgamento das Três-Marias.

Em Junho de 1973, as feministas norte-americanas organizaram um abaixo-assinado de escritoras e artistas de protesto contra o governo português pelo atentado à liberdade de criação literária que representava o processo das Três-Marias, com um apelo a uma acção de solidariedade no Women’s Interart Center em Nova Iorque.

 
Inquérito
O termo feminismo faz-lhe lembrar:
 
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