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| 22-Jun-2008 | |
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HISTORIAL Razão de ser do nome Porque a linguagem fez a passagem do primata ao humano, e é fundacional nas sociedades, nas culturas e nas identidades; porque são as palavras que fazem as coisas existir, queremos aqui explicar o sentido e a intenção das palavras que escolhemos para denominar este centro de documentação e arquivo. O nome de Elina Guimarães surge porque queremos homenagear uma mulher portuguesa de grande cultura que sempre se afirmou como feminista, mesmo nas situações mais difíceis. A utilização da palavra feminista surge com dupla carga, porque, justamente, caracteriza quer a mulher homenageada quer a temática central da documentação reunida. Deste modo, para quem não conheça quem foi a Dra Elina Guimarães fica imediatamente elucidado quanto ao teor deste centro de documentação. Mas há ainda a registar, no que toca à utilização explícita do termo "feminista" no contexto em que está inserido, uma outra virtude, a de proporcionar oportunidades de explicação e divulgação do verdadeiro sentido do termo, contribuindo assim para a remoção da carga negativa que lhe está associada, desmontando as falsas ideias que ainda hoje, continuam a proliferar na nossa sociedade. O Feminismo, apesar de traduzir "o desafio político à autoridade masculina hierárquica no seu mais profundo sentido, não é uma doutrina ou teoria que negue as relações inter-humanas e intra-humanas entre os géneros" (Braidotti, 1994)[1]; é antes, a tentativa de destronar a ideia universal construída a partir do modo de ser, pensar e fazer masculinos. O homem não pode continuar a considerar-se a si próprio como modelo único, universal, e tratar as mulheres como o restante, o subproduto da Humanidade. O Feminismo, melhor dito, os Feminismos de que actualmente tratam as teorias feministas, rejeitam os esquemas universais, os valores imutáveis, as estruturas fechadas, impostos pela cultura ocidental dominada pelo poder masculino, fundada sobre a ideia de género ou diferença sexual-social entre mulheres e homens. Também não pretende instaurar uma preponderância sexual-social feminina, nem uma troca de género no poder; não é o "machismo ao contrário"; o que o feminismo propõe que se faça é o "equilíbrio entre homens e mulheres, do social, do político e do económico, a favor de ambos com respeito pelas diferenças" (Offen, 1992). A partilha das decisões sobre o destino da humanidade é um direito que as mulheres ainda não alcançaram. Será que podemos falar de uma sociedade equilibrada e justa, quando o género, a classe social, a etnia, o país ou a região do mundo são condições através das quais se constituem fortes entraves à plena realização pessoal das mulheres em todo o mundo? Mas mais, o Feminismo, que hoje se reclama de plural, porque justamente reclama para as mulheres o direito de poderem decidir sobre as suas próprias vidas, participando em todas as instâncias culturais, sociais, religiosas, políticas e económicas, não tem a pretensão de construir uma definição única de mulher. A realidade das mulheres é múltipla, contém todas as diferenças, ambiguidades e contingências, sem que isso signifique uma inferioridade ou uma incompletude, qual determinismo biológico, como vem fazendo crer a cultura dominante ao longo dos milénios. Podemos então dizer, de uma forma sucinta, que o feminismo é denunciador de todas as formas de subjugação e domínio que os homens exercem sobre as mulheres; enunciador de uma teoria que desmonta, constantemente, a ideologia sexual e de género subjacente a todos os sistemas simbólicos e materiais que exploram a força criativa, produtiva e reprodutiva das mulheres de todo o mundo; e ainda, anunciador de uma esperança muito antiga - mulheres de todos os tempos rebelaram-se contra a injustiça da sua condição de subalternas e pagaram com a vida essa ousadia -, que releva do desejo de ocupar o lugar social, religioso, político e económico a que têm direito. Elina Guimarães Elina Júlia Chaves Pereira Guimarães da Palma Carlos, nascida em Lisboa em 8 de Agosto de 1904 e filha única de Alice Pereira Guimarães e de Vitorino Máximo de Carvalho Guimarães (militar e republicano convicto), herdou de seu pai o mesmo espírito entusiasta e combativo. Ou seja, desde muito cedo demonstrou interesse pelas conversas de foro político bem como, pela defesa dos direitos das mulheres. Por essa razão, Afonso Costa denominou-a como sendo a “mulher do futuro”[2]. Acreditando sempre na capacidade intelectual das mulheres e na necessidade de lutar pela igualdade de direitos e oportunidades entre ambos os sexos, realizou os seus primeiros estudos em casa, frequentou os Liceus Almeida Garrett e Passos Manuel e, em 25 de Novembro de 1926, licenciou-se em Direito pela Universidade de Lisboa, com a classificação de 18 valores. A sua entrada oficial no movimento feminista, esteve manifestamente relacionado com um artigo publicado, em 1925, enquanto estudante universitária no jornal intitulado Vida Académica. Basicamente, contestava a publicação de O Terceiro Sexo de Júlio Dantas pelo facto deste referir-se, sarcasticamente, ás mulheres que estudavam e pensavam. Esta ousadia permitiu-lhe o ingresso no Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas (CNMP) a convite de Adelaide Cabete, posteriormente desempenhou as funções de Secretária – Geral (1927), Vice - Presidente da Direcção (1928 – 1929, 1931) e Vice – Presidente da Assembleia Geral (1946). Em 1928, juntamente com Angélica Lopes Porto e Sara Leitão, elaboraram um plano de conferências feministas e, com Maria Amélia Matos e Tetralda Teixeira de Lemos, efectuaram uma revisão dos Estatutos. Contudo, era nas questões relacionadas com a sua formação académica: legislação, sufrágio, jurídica e de propaganda que Elina dava cartas, daí ter-lhe sido atribuído um voto de louvor pelo seu brilhante artigo que publicou no jornal O Rebate, onde criticava a lei eleitoral que não reconhecia o direito de voto à mulher. Para além disso, apresentou teses como: “A protecção à mulher trabalhadora” e “Da situação da mulher profissional no casamento” porque não somente defendia a participação política da mulher como forma de intervenção na sociedade, como exigia o direito a uma educação igualitária como forma de assegurar a mesma preparação profissional e a mesma liberdade de trabalho que ao sexo oposto. Sendo que a educação e a protecção à infância é outra das causas defendidas, aderiu aos protestos junto do Ministro da Instrução, contra a supressão da coeducação no ensino primário e reivindicou pela educação cívica e moral, demonstrando um pouco o seu lado maternalista, “(...) é necessário que as mulheres da nossa terra mais do que nunca se consagrem a essa obra tão linda e de tão vasto alcance que é a protecção à infância”[3]. Posteriormente, devido à partida de Adelaide Cabete para Angola, assumiu a direcção da revista Alma Feminina, entre 1929 e 1930 e também foi responsável pela “Página Feminista” na revista Portugal Feminino, onde sintetiza o pensamento e acção feministas. Ao aperceber-se do poder que tinha a imprensa, começou a redigir artigos de carácter educativo, feminista e jurídico, procurando esclarecer os equívocos conceptuais associados ao feminismo com o objectivo de desmistificá-lo (“O princípio básico do feminismo é a igualdade, ou antes, a equivalência moral, intelectual e social dos dois sexos (...)”, “(...) sustenta o valor da mulher como ser humano e (...) pretende melhorar a sua situação social de forma a garantir-lhe o pleno desenvolvimento da sua personalidade e o pleno exercício da mesma”.[4]) e divulgar a problemática da condição feminina e os direitos das mulheres, isto porque enquanto feminista, e citando as suas palavras, sabia da necessidade de “captar os pensamentos e anseios da mulher comum”[5]. Ou seja, chamá-las à razão para que não se deixassem intimidar pelos homens e serem capazes de lutar, com igual garra pelos seus interesses. Apesar de ter consciência plena de que em Portugal, ao contrário do que se passava no estrangeiro, o sentido do feminismo ainda não era socialmente aceite, inspirada pelas Associações Internacionais Feministas que dá a conhecer, não se deixa abalar e é peremptória ao afirmar: “(...) espero vir a convencer aquelas que me lerem que o feminismo, longe de ser uma aberração subversiva, é uma doutrina altamente moralizadora e altruísta, que só visa a elevar a mulher tornando-a assim mais apta a contribuir para a felicidade humana”[6]. Elina através da sua escrita teve um papel dinamizador e preponderante na difusão dos ideais feministas e poder-se-á de facto caracterizá-la como “a mulher do futuro” porque lutou pelas suas convicções de forma aguerrida e entusiasta. NOTA – Estes textos foram elaborados por Palmira Santana e por Vera Rodrigues, anteriores voluntárias no Centro de Documentação Entidade promotora A entidade promotora deste centro é a UMAR - União de Mulheres Alternativa e Resposta pela responsabilidade histórica que lhe assiste por ser uma associação com 30 anos de actividade e que se sempre se preocupou em preservar a memória histórica dos feminismos em Portugal. [7] Estão já concretizados protocolos com a Universidade Nova de Lisboa e com a Universidade Aberta, pretendendo-se alargar estes protocolos com outras entidades, nomeadamente aquelas que a nível universitário desenvolvem cursos ou estudos nesta área e a Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género. A responsabilidade no desenvolvimento do projecto partirá de uma equipa técnica do actual grupo de voluntárias a trabalhar no centro de documentação em ligação com a direcção da UMAR. UMAR - uma associação com 30 anos de História[8] A UMAR - União de Mulheres Alternativa e Resposta é uma associação de mulheres constituída em 12 de Setembro de 1976. Como Organização Não Governamental está representada no Conselho Consultivo da CIDM (Comissão para a Igualdade e Direitos das Mulheres) desde 1977. Nasceu da participação activa das mulheres com o 25 de Abril de 1974 e da necessidade sentida, por muitas delas, de criarem uma associação que lutasse pelos seus direitos, naquele novo contexto político. A UMAR é hoje uma associação que se reclama de um feminismo comprometido socialmente empenhada em despertar a consciência feminista na sociedade portuguesa. De um percurso de quase 30 anos, a UMAR conseguiu unir várias gerações de mulheres, abrir espaços de intervenção para as mais jovens e actualizar a sua intervenção com uma Agenda Feminista de novas e "velhas" causas, como seja o direito à contracepção e ao aborto, a luta contra a violência doméstica, a Paridade nos órgãos de decisão política ou o envolvimento internacional em iniciativas como a da Marcha Mundial de Mulheres. Cinco grandes fases percorrem a vida da Associação. Elas não foram planeadas como orientação política. Surgiram da vida, das lutas das mulheres e entrelaçam-se com a própria história dos feminismos em Portugal. 1ª Fase - As movimentações gerais - por creches, casas, emprego, educação, pela qualidade de vida (1976/77) "As centenas de mulheres que em 12 de Setembro de 1976 formaram a UMAR vieram das movimentações do 25 de Abril: das lutas nos bairros pelo direito a uma casa, por creches; das lutas nas empresas pelo direito ao emprego e a salário igual; das noites à volta de uma mesa a aprender as primeiras letras, das idas à Junta e à Câmara a exigir a água, a luz, a estrada".[9] Nesta primeira fase, a UMAR envolveu-se na luta mais geral que estava colocada na sociedade portuguesa do pós 25 de Abril. Foi a altura: ♀ dos cursos de alfabetização para mulheres em muitos bairros; ♀ da solidariedade com trabalhadoras de empresas como a Maconde (Braga), a Standard (Lisboa), a Confélis (Almada), a Kallen (Alenquer) e com as operárias conserveiras do Algarve e de Peniche;; ♀ da formação de Comissões de Mulheres desempregadas no Alentejo (Alcácer do Sal, Moura, Portel, Safara); ♀ das lutas nos bairros por casas dignas para viver e por creches. Em todas estas movimentações a UMAR sedimentou laços com os sectores mais desfavorecidos de mulheres, constituindo esta fase uma matriz histórica, que ainda hoje se faz sentir na associação, pelo seu trabalho em projectos de intervenção social e de formação social e profissional de mulheres em bairros como o das Laranjeiras em Lisboa, na área do Plano Integrado de Almada no Monte da Caparica ou ainda junto das mulheres desempregadas no Seixal, como exemplos. De destacar, ainda, neste período o apoio ao abaixo-assinado contra o encerramento da revista Mulher, Modas e Bordados. 2ª Fase - "O pessoal é político" o direito à contracepção e ao aborto (1978/84) Já em 1977, a UMAR tinha tomado posição pública sobre o direito ao aborto[10] e participado na recolha de 5 mil assinaturas entregues no dia 8 de Março na Assembleia da República, exigindo a legalização do aborto. Esta fase da vida da associação tem como centro a luta pela contracepção e aborto, mas não deixa de ter outros enfoques, como foi o caso da manifestação contra o tráfico de mulheres realizada no Porto a 28 de Janeiro de 1978, exemplo único no país até à actualidade. Destacam-se como principais iniciativas : ♀ solidariedade com Maria Antónia Palla e Conceição Massano; ♀ edição do folheto: "Aborto, as mulheres acusam"; ♀ manifestação contra o tráfico de mulheres no Porto; ♀ solidariedade com as trabalhadoras do Aviário do Freixial, com as bordadeiras da Madeira e com as operárias da Plessey; ♀ denúncia de assédio sexual de um fiscal da Lisnave em relação às mulheres da limpeza; ♀ integração da UMAR na CNAC- Campanha Nacional pelo Aborto e Contracepção; ♀ festa da Revista Mulher d'Abril; 3º Encontro Nacional; ♀ exigência da reabertura da maternidade de V. Real de Sto António; ♀ abaixo-assinado contra o concurso Miss Madeira; ♀ inquérito às relações familiares através da revista Mulher d'Abril; ♀ manifesto entregue no dia 8 de Março de 1981, no Parlamento, exigindo, entre outras reivindicações, o direito à contracepção e aborto; sessão cultural no teatro Vasco Santana; ♀ acções em defesa dos direitos das mulheres consignados na Constituição e no Código Civil; ♀ edição do folheto: "Contracepção para não abortar, legalização do aborto para não morrer"; ♀ recolha de assinaturas para o abaixo-assinado "Nós abortámos"; ♀ participação na semana da CNAC pela legalização do aborto e na concentração em S. Bento; ♀ exibição das camisolas dentro da Assembleia da República com a frase: "Nós abortámos" (acção conjunta com mulheres da CNAC); 3ª Fase - A afirmação institucional a acção comum no Conselho Consultivo da CIDM e na Coordenadora Nacional de Mulheres (1985/1990) Apesar da UMAR pertencer ao Conselho Consultivo da CIDM desde 1977, é nesta fase que mais se empenha num trabalho de acção comum com as ONGs de direitos das mulheres, não só na CIDM como na Coordenadora Nacional de Mulheres[11], estrutura formada em 1987 com ligação à Coordenadora Europeia de Mulheres que veio a perder papel com a formação do Lobby Europeu de Mulheres, em Setembro de 1990. A UMAR participa, neste período, nas iniciativas comuns das ONGs, nomeadamente nos seguintes seminários: ♀ Avaliação dos resultados da década da mulher. ♀ Violência contra as mulheres, iniciativa da Coordenadora Europeia de Mulheres em Lisboa. ♀ As mulheres e o emprego em Portugal. ♀ O direito comunitário e a igualdade entre mulheres e homens. ♀ Mulheres e pobreza, promovido pela Coordenadora Nacional de Mulheres. ♀ Assédio Sexual nos locais de trabalho; A UMAR subscreve, em Abril de 1987, com outras associações de mulheres, o Manifesto Eleitoral: O voto das mulheres deve dar lugar à voz das mulheres. Funda, com outras associações, a Coordenadora Nacional de Mulheres. Protesta também, com outras ONGs, contra a extinção da Comissão Parlamentar da Condição Feminina. Colabora na elaboração do projecto de lei sobre as Associações de Mulheres debatido na Assembleia da República a 8 de Março de 1988. Como iniciativas próprias destacam-se: ♀ solidariedade com as trabalhadoras da Standard; ♀ denúncia da posição dos bispos contra o planeamento familiar; ♀ folheto de apoio à candidatura de Maria de Lourdes Pintasilgo à Presidência da República; ♀ posição pública da UMAR contra o projecto de lei de revisão constitucional do CDS, que colocava o aborto como crime, na Constituição; ♀ denúncia do controlo das idas à casa de banho das operárias da Confélis; ♀ inquérito a 2000 mulheres da cidade de Lisboa sobre: "Emprego de mulheres e infraestruturas de apoio as crianças"; ♀ realização dos seguintes debates: "A Mulher e a Saúde"; "Droga, que atitude?"; "Mulher, mãe, cidadã e infraestruturas de apoio às crianças". 4ª Fase - Pela afirmação social, profissional e política das mulheres (1991/1996) Nesta fase, deste longo ciclo de vida da UMAR, a associação vira-se para projectos que conduzam à afirmação profissional, social e política das mulheres. É o caso dos projectos: ♀ "Mulher anos 90, construir uma profissão" com formação profissional para 36 mulheres desempregadas do concelho do Seixal. Edição de livro sobre o curso.[12] ♀ "Ginforme" - Gabinetes de atendimento às mulheres na área do emprego em várias regiões: Porto, Ovar, Lisboa, Évora, Madeira e Açores. Edição de livro.[13] ♀ Curso de Dinamizadoras Sócio-Culturais em Ponta Delgada. ♀ Curso de Formação para mulheres em horário pós-laboral em parceria com o Sindicato dos Bordados da Madeira. ♀ Inquérito às mulheres desempregadas em várias regiões do país. Estudo sobre emprego das mulheres e infraestruturas de apoio no concelho de Almada. É ainda nesta fase que começam a surgir projectos de intervenção junto das mulheres de bairros sociais. É o caso do Projecto Trevo - formação de Auxiliares de Geriatria no Bairro das Laranjeiras em colaboração com o Departamento de Acção Social da Câmara Municipal de Lisboa. A UMAR[14] desenvolve, ainda, neste período, no âmbito do projecto "Mais", inserido na iniciativa comunitária NOW[15] , uma Rede de Mulheres no Desenvolvimento Local, organiza três encontros de mulheres sobre este tema e edita vários boletins: A Teia. Deste trabalho surge o Livro: Entrelaços - Histórias de vida de mulheres.[16] São ainda realizados seminários sobre "Mulheres e Desenvolvimento local" em várias regiões do país. Todavia, a actividade da UMAR não se limita ao "empowerment" social e profissional das mulheres. O abrir de novos espaços de poder às mulheres passa também pela área da decisão política. É então desenvolvido o projecto: ♀ "Mais mulheres na decisão política", subsidiado pelo 3º Programa de Acção para a Igualdade da Comissão Europeia. Foi feito um spot para a televisão, editado um cartaz, brochuras e um postal. A UMAR realiza, ainda, um Tribunal de Opinião, no Centro de Estudos Judiciários sobre "Família e Direitos das Mulheres". De realçar que, no início da década de 1990, é a UMAR que se insurge contra uma peritagem no Instituto de Medicina Legal a mulheres acusadas de abortar clandestinamente. O processo tinha sido instaurado pela polícia judiciária, através da apreensão da agenda de uma parteira na rua da Bica, onde constava o nome de 1200 mulheres. [17] É nesta sequência que se realiza um debate na associação "Abril" sobre o tema e se forma um grupo de trabalho na APF, que veio dar origem à Plataforma Direito de Optar. A UMAR participa também, em 1994, no seminário: "Dez anos depois, a situação do aborto em Portugal" realizado no Instituto Franco Português, que teve um papel muito importante no quebrar dos silêncios sobre uma lei, aprovada em 1984, que continuava a lançar as mulheres para as malhas do aborto clandestino. A Conferência de Pequim sobre Direitos das Mulheres acontece em Setembro de 1995 e a UMAR realiza um conjunto de debates sobre a Conferência, na medida em que a sua representante no Conselho Consultivo da CIDM, que era também membro do Lobby Europeu de Mulheres, tinha feito parte da delegação de portuguesas a essa conferência.[18] 5ª Fase - Uma agenda feminista de novas e "velhas" lutas (1997/2005) A realização do Seminário "Movimento Feminista em Portugal" em Dezembro de 1998, no Montepio Geral, em Lisboa, marcou esta fase da vida da UMAR. Já no ano anterior, em 1997, a actividade da UMAR tinha sido muito intensa em torno de uma "velha" luta ainda não resolvida em Portugal: a legalização do aborto a pedido da mulher. Podemos assim, destacar: ♀ O lançamento da linha SOS- Aborto que recolheu dezenas de depoimentos de mulheres de todo o país sobre as suas situações de aborto. Entrega no Parlamento de um dossier com depoimentos desta linha. ♀ Conferência de Imprensa sobre a morte de uma mulher, do Bairro de Aldoar do Porto, vítima de aborto. A Lisete Moreira morreu no dia 8 de Março de 1997, alguns dias depois do Parlamento ter recusado, pela diferença de um voto, um projecto de lei da JS de despenalização do aborto. ♀ Lançamento da Declaração "Juntas pela Dignidade" subscrito por mulheres de renome em contraponto ao congresso dos "Juntos pela Vida". ♀ A UMAR participou também no Movimento "Sim pela Tolerância", na altura do referendo e publicou duas edições de um livro de contributos para a "História do movimento pelo aborto e contracepção em Portugal ". (1997 e 1998). Outra grande área de intervenção da UMAR, neste período é a da violência contra as mulheres. Destaca-se: ♀ O projecto na Região Autónoma dos Açores de uma Linha SOS-Mulher[19] e a abertura de gabinetes de atendimento a mulheres vítimas de violência em três ilhas: S. Miguel, Terceira e Faial. ♀ A Linha azul "Solidariedade Mulheres" com apoio psicológico e jurídico às mulheres vítimas de violência.[20] ♀ Protocolo com a Secretaria de Estado para a Igualdade, no ano 2001, para a abertura de casas Abrigo para mulheres vítimas de violência. ♀ Acções de pesquisa e formação na área da violência doméstica. ♀ Participação no seminário promovido pela Associação Portuguesa de Sociologia com uma comunicação sobre o tema, assim como noutros seminários a pedido de autarquias e outras entidades. A UMAR participou também, na Assembleia da República, em audições públicas sobre a "Violência como crime público" tendo dado o seu parecer favorável.[21] Outra grande área de intervenção, de matiz inovador e de reforço de uma agenda feminista para os tempos actuais, foi a participação, desde o primeiro momento, na preparação da Marcha Mundial de Mulheres.[22] A UMAR que já trabalhava em parceria com associações de mulheres de outros países, no desenvolvimento dos seus projectos de intervenção, integra, desta vez, um movimento mundial plural, que tem na sua origem[23]uma visão feminista do mundo e da luta das mulheres. Destaca-se assim: ♀ A participação da UMAR na Marcha Mundial de Mulheres em Bruxelas, Nova Iorque (2000) e nas iniciativas europeias em Vigo (2004) e Marselha (2005). ♀ A participação na Plataforma Nacional da Marcha Mundial de Mulheres e a organização de um troço bem colorido e feminista na manifestação de Lisboa com o lema:" Se as mulheres param, o mundo pára" (2000). ♀ Edição de uma brochura, divulgada em sessão, na Livraria Bulhosa, sobre a Marcha Mundial de Mulheres. Realização de debate sobre Mulheres e Globalização com uma comunicação da professora Lígia Amâncio. Divulgação da brochura "Ser Feminista é outro mundo também" e de um slide-show sobre a Marcha Mundial de Mulheres em Nova Iorque. ♀ Acções de divulgação da Carta das Mulheres para a Humanidade e da Manta da Solidariedade que tendo partido do Brasil a 8 de Março de 2005, chegaram a Portugal a 15 de Maio e foram entregues às mulheres galegas a 19 de Maio numa iniciativa conjunta junto ao rio Minho (2005).O retalho português da Manta foi elaborado por Ana Salazar e divulgada numa iniciativa no Museu da República e Resistência. É, ainda, deste período, a realização dos seguintes seminários: "Igualdade, o nosso compromisso" sobre as políticas de mainsteaming em parceria com a Fundation Mujeres, de Madrid e com o projecto Hera-2001;" Mulheres e exclusão social", em Ponta Delgada. Dois projectos de intervenção junto das mulheres da área do Plano Integrado de Almada surgem também nesta fase de vida associação: ♀ Projecto VIRAR - Formação Profissional de mulheres desempregadas na área de Serviços de Proximidade e criação de um Centro de Recursos. (1997/99) ♀ Projecto IÂ-IÔ- Integração - Autonomia - Igualdade de Oportunidades, no âmbito do Programa de Luta contra a Pobreza.(2000/03) De realçar, ainda, as seguintes publicações para além das que já foram citadas: ♀ do livro "Igualdade de Oportunidades entre rapazes e raparigas em contexto de ensino aprendizagem"- 2 volumes e duas edições (1999 e 2000); ♀ da brochura "O acesso à Justiça e o Direito de Queixa" (Elisabete Brasil, 1999); Para reflectir sobre esta Agenda Feminista de novas e "velhas" lutas que caracteriza esta fase da UMAR decidiu-se realizar no Porto, um segundo seminário promovido pela associação, sobre o Movimento Feminista com três painéis: Violência contra as Mulheres, Mulheres e Globalização e Aborto, um direito, uma escolha, com o envolvimento de activistas feministas e académicas, procurando expressar nesta iniciativa novos trabalhos e novos estilos de intervenção. Este seminário tem o apoio da APEM- Associação de Estudos sobre as Mulheres. Não tendo quaisquer pretensões de pioneirismos que são sempre limitativos de um trabalho conjunto e em rede que deve caracterizar a intervenção feminista, a UMAR tem tido a preocupação de ligar as activistas feministas à investigação que se produz hoje em diversas universidades: é o caso do projecto "As Faces de Eva", na Universidade Nova de Lisboa, do Mestrado em Estudos sobre as Mulheres, na Universidade Aberta, do trabalho de associações de Estudos sobre as Mulheres, como a APEM, ou ainda de diversas investigações em curso na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação do Porto, da Universidade do Minho, no ISCTE, em Lisboa, na Universidade de Coimbra ou em Centros de Estudos como o CESIS. Esta é uma tarefa só possível com a colaboração de um conjunto de investigadoras que há muito assumiram os Estudos sobre as Mulheres como a afirmação de um espaço ainda a conquistar nas nossas universidades. Numa iniciativa conjunta de diversos centros universitários ligados aos Estudos sobre as Mulheres e de várias associações entre as quais a UMAR, realizou-se o seminário evocativo do I Congresso Feminista e da Educação em 4, 5 e 6 de Maio de 2004. . A direcção da UMAR combina hoje uma nova geração de mulheres com outras que viveram intensamente os movimentos de mulheres dos anos 70, num intercâmbio de ideias e experiências capaz de estabelecer os elos entre gerações fundamentais para que a memória histórica não se venha a perder, mas que permita avanços no quadro de novos tempos e de novas posturas sobre os feminismos. "A UMAR é uma associação: Que vive intensamente as grandes causas da luta das mulheres Que incentiva e promove a participação de mais mulheres Que se reclama de um feminismo que impulsione a consciência activa das mulheres Que diz Sim às mulheres que a ela recorrem, que aspiram a romper amarras a ter direito à sua realização pessoal, profissional e social Que diz Sim à igualdade de direitos e à participação paritária das mulheres em todas as esferas de decisão". [1] BRAIDOTTI, Rosi (1994), Nomadic Subjects: Embodiment and Sexual Difference in Contemporary Feminist Theory, [2] CIDM, Elina Guimarães/ Uma Feminista Portuguesa, Vida e Obra (1904-1941), 2004, pág.9. [3] “A participação feminina no Congresso Internacional de Protecção à Infância”, in, Portugal Feminino, Dezembro, 1931, nº23, pág13. [4] Elina Guimarães, “Introdução ao estudo do feminismo”, in, Portugal Feminino, Fevereiro,1930, nº1, pág.13. [5] CIDM, Elina Guimarães/ Uma Feminista Portuguesa, Vida e Obra (1904-1941), 2004, pág.24. [6] Ibidem. [7] Junta-se a este processo um historial da associação. [8] Texto elaborado por Manuela Tavares associada fundadora da UMAR e actualmente Presidente da Mesa da Assembleia Geral. [9] UMAR-4º Encontro Nacional, documento de balanço, Lisboa, 1989. [10] "Organização feminina contra disposição do decreto anti-aborto", Jornal de Notícias, 1 de Abril de 1977. [11] A Coordenadora Nacional de Mulheres era formada pelas seguintes associações: Associação de Mulheres Socialistas, Cooperativa Editorial de Mulheres/IDM, Grupo de Mulheres de Lourosa, Grupo "Ser Mulher", Liga dos Direitos das Mulheres, MDM e UMAR. [12] "Mulher anos 90-construir uma profissão", UMAR, Lisboa, 1993. [13] "Novas Oportunidades para as mulheres", UMAR, Lisboa, 1995. [14] Os projectos anteriores foram também subsidiados por programas no âmbito do Fundo Social Europeu. [15] Iniciativa NOW - Novas Oportunidades para Mulheres- programa da Comissão Europeia. [16] Este livro tem duas edições, em 1998 e em 1999. [17] Comunicado da UMAR publicado no Diário de Lisboa de 26 de Setembro de 1990. [18] A representante da UMAR na CIDM era, nessa altura, Manuela Tavares. [19] Este projecto é financiado pelo governo regional. [20] Este projecto é suportado pela associação. [21] Participou também noutras audições sobre "Uniões de facto" e "Lei das Associações de Mulheres". [22] A presidente da UMAR, Helena Pinto, deslocou-se à primeira reunião preparatória no Canadá. [23] Federação das Mulheres do Quebec. |





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